A mudança de comportamento é um dos maiores desafios no cuidado nutricional. Mesmo com orientações adequadas, muitas pessoas enfrentam dificuldades para manter novos hábitos, sustentar motivações e lidar com a rotina. Nesse cenário, a Entrevista Motivacional (EM) surge como uma ferramenta de comunicação fundamental.
A técnica foi desenvolvida pelos psicólogos William R. Miller e Stephen Rollnick, inicialmente no contexto do tratamento do uso de álcool e outras substâncias. Seu objetivo original era ajudar pacientes que apresentavam ambivalência — aquele conflito interno entre “quero mudar, mas não consigo”. Com o tempo, por mostrar bons resultados na promoção de mudanças de comportamento, a EM foi ampliada para diversas áreas da saúde, incluindo a nutrição.
No Posicionamento da ABESO (2022), a Entrevista Motivacional aparece como uma das estratégias recomendadas dentro do tratamento nutricional do sobrepeso e da obesidade. Ela é citada ao lado de outras abordagens baseadas em evidências, como educação alimentar, terapia cognitivo-comportamental (TCC) e intervenções dietéticas estruturadas. Essa inclusão reforça a EM como um recurso valioso para o nutricionista na prática clínica.
O que é a Entrevista Motivacional?
A Entrevista Motivacional é um estilo de conversa colaborativo que busca evocar, e não impor, motivos internos para a mudança. É uma comunicação centrada na pessoa, que respeita autonomia, valores e ritmo de cada paciente.
O método se apoia no chamado Espírito da EM, composto por quatro pilares:
• Parceria: profissional e paciente constroem o processo juntos;
• Aceitação: respeito genuíno à autonomia da pessoa;
• Evocação: trazer à tona as razões internas da mudança;
• Compaixão: foco real no bem-estar do paciente.
A EM não é persuasão, não é confronto, e não tenta “consertar” o paciente. Ela cria um espaço onde a mudança pode nascer de dentro — e ser sustentada.
Por que a EM funciona tão bem na Nutrição?
O comportamento alimentar é influenciado por emoções, hábitos antigos, crenças, ambiente, história familiar e rotina. Por isso, conhecimento técnico nem sempre é suficiente para mudar — a pessoa precisa sentir que essa mudança faz sentido para sua vida.
Estudos mostram que a EM pode:
• melhorar a adesão ao tratamento;
• aumentar motivação e autoeficácia;
• reduzir comportamentos de risco;
• apoiar perda de peso quando combinada com intervenções nutricionais;
• reduzir resistência em pacientes ambivalentes.
Para o nutricionista, é uma ferramenta que amplia a eficácia da consulta. Para o paciente, é uma forma de encontrar clareza, reduzir culpa e construir mudanças possíveis.
Os 4 processos da Entrevista Motivacional:
1. Engajamento: O vínculo é construído. O paciente sente que está sendo ouvido sem julgamento.
2. Focagem: Profissional e paciente definem juntos qual direção seguir. “Qual mudança faria mais diferença na sua vida agora?”
3. Evocação: É o coração da EM.
Aqui entra o diálogo que ajuda o paciente a expressar seu discurso de mudança. São usadas ferramentas como:• perguntas abertas,
• reflexões,
• afirmações,
• reforço do que é importante para aquela pessoa.
4. Planejamento: Quando o paciente mostra prontidão, nasce o “como”. O nutricionista ajuda a transformar intenção em passos práticos.
Como aplicar a EM na prática clínica?
– Perguntas abertas: elas ampliam a consciência: “O que ajudaria você a se organizar melhor essa semana?”
– Reflexões: elas devolvem ao paciente aquilo que ele mesmo expressou: “Você está buscando um caminho mais leve, algo que realmente caiba na sua rotina.”
– Reforço do discurso de mudança: sempre que o paciente expressar um motivo, desejo ou necessidade: “Isso parece importante pra você.”
– Evitar o “reflexo de consertar”: esse é um dos pontos mais valiosos da EM, o profissional não tenta ajustar o paciente — ajusta a conversa.
Resultados na prática
A EM fomenta mudanças sustentáveis porque:
• respeita o tempo do paciente;
• fortalece autonomia;
• reduz resistência;
• cria clareza;
• apoia escolhas mais conscientes;
• facilita adesão ao plano nutricional.
Ela não substitui outras intervenções, mas potencializa tudo o que o nutricionista já faz.
Referências:
- ABESO. Posicionamento sobre o tratamento nutricional do sobrepeso e da obesidade. Departamento de Nutrição da ABESO. 2022.
- Armstrong MJ, Mottershead TA, Ronksley PE, et al. Motivational interviewing to improve weight loss in overweight and/or obese patients: a systematic review and meta-analysis. Obesity Reviews. 2011;12(9):709–723.
- Bean MK, Powell PW, Quinoy A, et al. Motivational interviewing and dietary counseling for obesity: a randomized clinical trial. American Journal of Preventive Medicine. 2020;59(1):46–54.
- Martins RK, McNeil DW. Review of Motivational Interviewing in promoting health behaviors. Clinical Psychology Review. 2009;29(4):283–293.
- Miller WR, Rollnick S. Motivational Interviewing: Helping People Change. 3rd ed. New York: Guilford Press; 2013.
