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Escrito por: Isadora Azambuja – Nutricionista

A literatura e as principais diretrizes reforçam que a obesidade é uma doença crônica que só é tratada de forma efetiva quando inserida em um cuidado contínuo e multiprofissional. Para nutricionistas e demais profissionais recém‑formados, entender esse modelo é essencial para oferecer cuidado baseado em evidências, reduzir estigma e melhorar desfechos de saúde dos pacientes.

Obesidade como doença crônica e complexa

Diretrizes internacionais posicionam a obesidade como doença crônica, multifatorial, com forte influência biológica, psicológica e ambiental, o que exige manejo estruturado e de longo prazo, não intervenções pontuais.Documentos recentes destacam a importância de enxergar o prazo, não intervenções pontuais. Documentos recentes destacam a importância de enxergar o peso dentro de um curso de vida (da gestação ao envelhecimento), integrando prevenção, tratamento e manutenção em diferentes níveis de atenção.

Essa visão implica abandonar a lógica de “falta de força de vontade” e reconhecer que alterações neuroendócrinas, inflamação crônica de baixo grau, comorbidades e determinantes sociais de saúde modulam tanto o ganho de peso quanto a resposta ao tratamento. Para o profissional de saúde, isso muda a forma de conversar com o paciente, a definição de metas e a expectativa de resultado.

O que dizem as diretrizes sobre equipe multiprofissional

No contexto brasileiro, o Posicionamento Oficial da ABESO sobre terapia nutricional para excesso de peso e obesidade reforça que o manejo deve ser multiprofissional, combinando mudanças no estilo de vida com apoio psicológico, orientação alimentar individualizada, prescrição de atividade física e, quando necessário, tratamento medicamentoso e cirurgia metabólica, sempre em seguimento contínuo e integrado.

Posicionamentos da European Association for the Study of Obesity (EASO) e consensos de sociedades médicas reforçam o dever do cuidado por uma equipe multiprofissional, com papel articulador da atenção primária.

Benefícios clínicos de um cuidado integrado

Modelos de manejo contínuo em equipe mostram maior perda de peso, melhor manutenção do peso perdido e maior controle de comorbidades (diabetes, hipertensão, dislipidemia) quando comparados a intervenções fragmentadas.A atuação integrada permite combinar intervenções de estilo de vida, suporte comportamental, farmacoterapia e, quando indicado, cirurgia metabólica, reduzindo tempo de inércia terapêutica e ampliando o acesso a opções baseadas em evidências.

Além dos desfechos clínicos, são descritas melhorias significativas em qualidade de vida, funcionamento psicossocial e adesão de longo prazo, especialmente quando psicologia, funcionamento psicossocial e adesão de longo prazo, especialmente quando psicologia, educação em saúde e apoio social são incorporados formalmente ao plano de tratamento.

Em grupos específicos, como idosos e adolescentes, documentos recentes ressaltam que o cuidado interprofissional é fundamental para manejar comorbidades, barreiras funcionais e contextos familiares, minimizando danos e riscos de estigmatização.

Papel específico das diferentes profissões

O nutricionista é apontado como peça central na condução de intervenções em estilo de vida, manejo de ingestão energética, qualidade da dieta e prevenção de deficiências nutricionais, inclusive em contextos de farmacoterapia e cirurgia bariátrica. Diretrizes atualizadas para pacientes bariátricos, por exemplo, reforçam a necessidade de acompanhamento nutricional e de atividade física estruturados, com prescrição e monitorização de suplementação ao longo do tempo.

Além disso, o documento conjunto SBEM/ABESO sobre nova classificação da obesidade com base na história de peso também reconhece que metas realistas (como reduções de 5–15% do peso) e acompanhamento clínico regular exigem atuação coordenada de diferentes profissionais de saúde. Isso dialoga bem com a ideia de linha de cuidado e com o papel do nutricionista como parte estruturante da equipe.

Médicos (clínico, endocrinologista, cirurgião) atuam na avaliação global, estratificação de risco e indicação de farmacoterapia e cirurgias, enquanto psicólogos e psiquiatras trabalham aspectos de transtornos alimentares, regulação emocional, compulsão e adesão. Profissionais de educação física e fisioterapeutas adaptam planos de movimento às limitações articulares, cardiorrespiratórias e funcionais típicas de pessoas com obesidade, favorecendo segurança e progressão.

Desafios e oportunidades para o recém‑formado

Apesar do consenso sobre a importância do cuidado multiprofissional, revisões de diretrizes e pesquisas de prática clínica apontam grande variabilidade na organização de serviços, critérios de encaminhamento e composição das equipes. Muitos profissionais relatam lacunas de formação em obesidade e dificuldade de acesso a protocolos claros, o que reforça a necessidade de educação continuada e construção ativa de redes de referência locais.

Para nutricionistas e outros profissionais em início de carreira, estratégias práticas incluem: estabelecer fluxos de encaminhamento com médicos e psicólogos, construir planos terapêuticos compartilhados, registrar e acompanhar desfechos comuns (peso, circunferência, parâmetros metabólicos, qualidade de vida) e defender, dentro das instituições, a obesidade como linha de cuidado prioritária.A adoção desse olhar multiprofissional não apenas melhora o prognóstico dos pacientes, como também fortalece o papel técnico e político do nutricionista na gestão da obesidade como problema de saúde pública.

Referências

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