Escrito por João Raineri – nutricionista
O futebol é uma modalidade praticada mundialmente e que apresenta evolução constante, acompanhada por um aumento progressivo das exigências físicas e técnicas impostas aos atletas. Nesse cenário, a nutrição assume papel fundamental, não apenas na otimização do desempenho esportivo durante treinamentos e partidas, mas também na manutenção da saúde, da recuperação e da disponibilidade física ao longo de toda a temporada competitiva (Collins et al., 2019).
As estratégias nutricionais relacionadas ao dia do jogo geralmente compreendem o período de 90 a 120 minutos que antecedem o início da partida, bem como toda a sua duração, que pode se estender até 120 minutos em caso de prorrogação. Os principais objetivos dessas estratégias incluem garantir adequada oferta energética, manutenção do estado de hidratação e, quando necessário, a aplicação de intervenções nutricionais de efeito agudo com o intuito de otimizar o desempenho e retardar o aparecimento da fadiga ao longo do jogo (Abreu et al., 2019).
Durante uma partida de futebol, os atletas realizam uma ampla variedade de ações físicas e técnicas, como caminhadas, corridas em diferentes intensidades, mudanças rápidas de direção, saltos, finalizações e contato físico com adversários. Nos jogadores de linha, a intensidade do esforço é elevada e sustentada ao longo do jogo, com valores médios de frequência cardíaca próximos a 85% da frequência cardíaca máxima e intensidade relativa equivalente a aproximadamente 70% do consumo máximo de oxigênio (VO₂máx), o que resulta em elevado gasto energético. Nesse contexto, os carboidratos configuram-se como a principal fonte de energia, contribuindo com cerca de 60–70% do total utilizado durante a partida (Collins et al., 2019).
Apesar de a distância total percorrida pelos jogadores de linha ter permanecido semelhante ou levemente reduzida em comparação a temporadas anteriores, observou-se um aumento expressivo no número de ações realizadas em alta intensidade, incluindo corridas rápidas e sprints. Esse fenômeno reflete adaptações táticas do futebol moderno e o aumento das exigências físicas e técnicas do jogo, sendo observado em todas as posições de linha. Paralelamente, houve maior envolvimento técnico, evidenciado pelo aumento no número e na precisão dos passes, o que também impõe maior demanda cognitiva aos atletas (Collins et al., 2019).
Em relação aos goleiros, embora realizem menor volume de deslocamento e menor número de ações de alta intensidade, esses atletas desempenham aquecimentos prolongados antes das partidas, raramente são substituídos e precisam manter alto nível de prontidão física emental durante todo o jogo, incluindo eventuais prorrogações. Diante desse cenário de crescente exigência física, técnica e cognitiva, torna-se evidente a importância de estratégias nutricionais bem estruturadas para sustentar o desempenho e retardar a fadiga ao longo da partida (Collins et al., 2019).
ESTRATÉGIAS NUTRICIONAIS ANTES DA PARTIDA
Recomenda-se que o atleta realize uma refeição rica em carboidratos, com ingestão aproximada de 1 a 3 g/kg de massa corporal, entre 3 e 4 horas antes do início da partida, a fim de garantir níveis adequados de glicogênio no momento do jogo. Essa refeição pré-jogo é especialmente importante para a reposição do glicogênio hepático, que pode estar consideravelmente reduzido após o jejum noturno, situação ainda mais relevante em partidas realizadas no período da manhã. Dessa forma, o planejamento nutricional do dia anterior ao jogo também deve ser cuidadosamente considerado (Abreu et al., 2019).
A refeição pré-jogo deve priorizar alimentos de fácil digestão, minimizando o risco de desconfortos gastrointestinais, e respeitar a individualidade e a familiaridade do atleta com os alimentos. Mais do que a adoção de estratégias rígidas, o conforto do jogador deve ser levado em conta, uma vez que hábitos alimentares consolidados podem influenciar positivamente a prontidão para a competição. A educação nutricional, associada à prática dessas estratégias em treinos e partidas de menor importância, mostra-se fundamental para otimizar os estoques de glicogênio e a preparação para o jogo (Abreu et al., 2019).
No que se refere à hidratação, é fundamental que os jogadores iniciem a partida em estado de euhidratação. Para isso, recomenda-se a ingestão de aproximadamente 5 a 7 mL de líquidos por quilo de massa corporal nas 2 a 4 horas que antecedem o início do jogo. Essa abordagem permite a eliminação de excessos de líquidos antes do exercício e favorece o equilíbrio hídrico, geralmente indicado por uma urina de coloração amarelo-clara (Abreu et al., 2019).
ESTRATÉGIAS NUTRICIONAIS DURANTE A PARTIDA
Em relação à ingestão de carboidratos durante a partida, as diretrizes atuais sugerem o consumo de aproximadamente 30 a 60 g após o aquecimento e novamente durante o intervalo, com o objetivo de assegurar adequada disponibilidade energética para sustentar o desempenho ao longo do jogo. A ingestão de carboidratos em exercícios intermitentes, como o futebol, está associada a melhorias em ações técnicas específicas, como maior precisão e potência dos chutes, melhor velocidade de drible e qualidade dos passes (Abreu et al., 2019).
Embora alguns estudos apontem efeitos positivos, os impactos da ingestão de carboidratos sobre variáveis físicas como velocidade de corrida, capacidade de salto, mudanças de direção e desempenho cognitivo ainda apresentam resultados inconsistentes na literatura.Ainda assim, o fornecimento de carboidratos durante a partida é considerado uma estratégia relevante para preservar o rendimento técnico e retardar a fadiga, especialmente em momentos decisivos do jogo (Collins et al., 2019).
Durante o exercício, a transpiração promove perdas significativas de água e eletrólitos, sobretudo sódio, variando amplamente entre os jogadores. A desidratação resultante pode comprometer o desempenho por meio de diferentes mecanismos, incluindo aumento do estresse cardiovascular, prejuízo da função cognitiva, maior percepção de esforço, redução da capacidade física e queda da qualidade técnica. Além disso, a sensibilidade à desidratação é individual (Collins et al., 2019).
De modo geral, recomenda-se que os jogadores ingiram líquidos suficientes para evitar perdas superiores a 2–3% da massa corporal durante o exercício, sem ocasionar hiperhidratação, assegurando simultaneamente o adequado aporte energético. Em partidas com prorrogação, a atenção à hidratação e ao consumo de carboidratos deve ser intensificada. Todas as estratégias nutricionais, incluindo o uso de suplementos, devem ser previamente testadas em treinos e partidas de menor importância, permitindo ajustes individualizados e minimizando riscos de efeitos adversos em jogos decisivos (Collins et al., 2019).
CONCLUSÃO
O futebol contemporâneo é caracterizado por elevadas exigências físicas, técnicas e cognitivas, resultado da intensificação do ritmo de jogo e das constantes evoluções táticas. Nesse contexto, a nutrição esportiva assume papel fundamental na preparação e no desempenho dos atletas, sendo um componente indispensável para sustentar a performance ao longo das partidas e da temporada competitiva.
As evidências apresentadas demonstram que estratégias nutricionais adequadas antes e durante a partida, com ênfase na ingestão de carboidratos e no controle do estado de hidratação, são determinantes para a manutenção das reservas energéticas, para o atraso do aparecimento da fadiga e para a preservação das capacidades técnicas e cognitivas dos jogadores. Além disso, a individualização das condutas nutricionais, considerando as diferenças entre posições, características fisiológicas e tolerância alimentar, mostra-se essencial para maximizar os benefícios dessas intervenções.
Por fim, destaca-se que a implementação efetiva das estratégias nutricionais deve ser integrada à rotina de treinos, permitindo ajustes personalizados e maior adesão por parte dos atletas. Dessa forma, a nutrição deixa de ser apenas um suporte complementar e passa a atuar como elemento estratégico no futebol de alto rendimento, contribuindo diretamente para a otimização do desempenho esportivo e para a promoção da saúde do atleta.
REFERÊNCIAS
COLLINS, J. et al. UEFA expert group statement on nutrition in elite football: current evidence to inform practical recommendations and guide future research. British Journal of Sports Medicine, Londres, v. 55, n. 8, p. 416–427, 2021. doi: 10.1136/bjsports-2019-101961.
ABREU, R. et al. Portuguese Football Federation consensus statement 2020: nutrition and performance in football. BMJ Open Sport & Exercise Medicine, Londres, v. 7, n. 3, e001082, 2021. doi: 10.1136/bmjsem-2021-001082.
