Por Gabriela Ribeiro – Nutricionista.
“Estou pensando em tomar mounjaro. Queria perder uns 3-4 kg, o que você acha?”
Assim como muitos profissionais, recebi essa pergunta alguns meses atrás e versões similares dela com o passar das semanas. Que a busca pelas “canetas emagrecedoras” cresceu e segue crescendo mundo afora não é novidade para ninguém. Mas, a incorporação delas ao “projeto verão” dos nossos pacientes é, se não novidade, no mínimo, digno de algumas reflexões.
Nessa última semana, uma paciente chorou comigo em consulta ao falar sobre o seu desejo de emagrecer. Na prática clínica, isso não é raro. Há um sofrimento claro, grande, arrebatador e marcado na história daquele indivíduo. No modo de se enxergar, se sentir e agir no mundo. De modo geral, querer mudar a imagem corporal é algo que une pessoas de diferentes gêneros, idades, classes sociais e pesos. O desejo parece ganhar destaque em épocas de férias, idas à praia e exposição do corpo num país como o nosso, podemos somar a isso o uso das redes sociais e temos o combo perfeito para a pergunta do início do texto fazer todo o sentido para mulheres, homens, jovens, adultos, pessoas com obesidade, sobrepeso e eutrofia.
Apesar de a busca por resultados rápidos não se limitar a esse período, a chegada do verão e, pela primeira vez, na era dos análogos de GLP-1, nos coloca enquanto profissionais em um cenário bastante desafiador: Um querer emagrecer a todo e qualquer custo, idealmente para ontem e, se possível, de forma que contemple não apenas o espelho e a balança, mas também a foto sem filtro e esteticamente impecável no feed das redes sociais.
Como nutricionistas, e não emagrecedores de corpos, a responsabilidade é grande. Com mudanças na alimentação, temos todo o conhecimento técnico necessário para guiar nossos pacientes em direção ao emagrecimento saudável. Mas, apesar da semântica exigir que eu escreva “emagrecimento saudável”, a saúde aqui precisa vir em primeiro lugar, ocupando o emagrecimento a posição seguinte.
Diante disso, como apoiar objetivos estéticos sem reforçar padrões irreais, práticas extremas ou uma relação adoecida com a comida e com o corpo?
Não acho que exista uma resposta única para esse questionamento, mas sim caminhos possíveis e que podem ser traçados em um acompanhamento nutricional pautado na transparência com o paciente. Para isso, algumas ferramentas podem nos auxiliar:
1. Entrevista motivacional (EM): Grande aliada dos atendimentos, a EM se fundamenta em perguntas abertas que ampliam a reflexão, de forma a promover maior consciência em relação às questões atreladas ao comer, ao corpo e motivos para mudar;
2. Identificação e ressignificação de crenças limitantes: Identificar falas que o paciente traz em consulta que refletem crenças associadas a conceitos como “corpo perfeito” e promover reflexões a respeito, ajudando o paciente a diferenciar saúde, estética e a importância da individualidade nesse cenário. Nas redes sociais, consumir conteúdos de pessoas que possuem corpos parecidos pode ajudar.
3. Neutralidade ou aceitação corporal: Nem todos os pacientes conseguem amar o próprio corpo. A aceitação aqui propõe uma relação mais funcional e menos violenta, entendo o corpo a partir de um olhar mais voltado às suas capacidades e funcionalidades. Do ponto de vista de metas e objetivos, focar em mudanças como progressão de cargas nos treinos, melhora da flexibilidade, força, capacidade cardiorrespiratória, entre outras métricas mais objetivas pode contribuir com maior percepção de progresso, e indo na contramão da magreza a qualquer custo, que por vezes coloca em risco essas mudanças em direção a um melhor estado de saúde.
Evidentemente, não há um único caminho a ser percorrido. Cada paciente é único e, quando saudável, o emagrecimento pode ser um aliado a mudanças positivas do estilo de vida, incluindo alimentação equilibrada, atividade física regular, sono adequado e vida social. Como profissionais, é fundamental estarmos aptos a identificar comportamentos de risco e direcionar o seguimento tendo sempre a saúde como prioridade. E, quando necessário, encaminhar para acompanhamento psicológico ou psiquiátrico, reforçando a importância do cuidado multiprofissional diante do cenário atual.
