Por Graziela Nannin – Nutricionista
Os alimentos sempre tiveram um papel que vai muito além da nutrição. Eles estão ligados à memória, ao afeto, à sensação de cuidado e, muitas vezes, ao conforto emocional. Para muitas pessoas com obesidade, a comida representa acolhimento em momentos difíceis, uma pausa em meio ao estresse, uma forma de aliviar dores que nem sempre são físicas.
Com o avanço dos medicamentos injetáveis para controle do peso, popularmente conhecidos como “canetas para emagrecimento”, esse vínculo com a comida passa por mudanças importantes. Esses medicamentos atuam reduzindo o apetite, aumentando a saciedade e facilitando o processo de emagrecimento. Os resultados, em termos de peso corporal, costumam ser expressivos.
Mas existe um ponto pouco discutido: o que acontece emocionalmente quando o apetite diminui de forma intensa quando a comida deixa de ser emoção e passa a ser somente necessidade física?
Na prática clínica, é comum ouvir relatos como:
“Eu sei que preciso comer, mas não tenho vontade.”
“Nada parece apetitoso.”
“Como só para não passar mal.”
“Perdi o prazer de comer.”
A redução do apetite pode ser vista, inicialmente, como algo positivo. Porém, quando ela é muito intensa, pode gerar um efeito colateral silencioso: a perda do alimento como fonte de conforto emocional. Buscar conforto na comida não é fraqueza. É humano.
Para muitas pessoas, especialmente aquelas que conviveram por anos com obesidade, a alimentação sempre foi uma forma de lidar com frustrações, solidão, ansiedade e dificuldades do dia a dia. Quando esse recurso desaparece de forma abrupta, o vazio emocional pode aparecer, mesmo com a satisfação de ver o peso diminuir. Os desafios continuam existindo. Problemas familiares, profissionais, emocionais e financeiros não desaparecem com a perda de peso. O que muda é que, muitas vezes, o alimento deixa de ser um apoio nesses momentos.
Sem acompanhamento, isso pode gerar:
– sensação de apatia;
– tristeza sem causa aparente;
– desconexão com o prazer alimentar;
– dificuldade de manter refeições regulares;
– relação ainda mais mecânica com a comida.
Além do impacto emocional, a redução do apetite pode comprometer aspectos importantes da saúde nutricional, como:
– perda de massa muscular;
– baixa ingestão de proteínas;
– deficiências de vitaminas e minerais;
– redução da energia e da funcionalidade corporal.
O nutricionista ajuda o paciente a:
– comer mesmo com pouco apetite, de forma estratégica;
– priorizar proteínas para preservar massa muscular;
– garantir vitaminas e minerais essenciais;
– escolher alimentos saudáveis e palatáveis;
– reconstruir o prazer em comer;
– cuidar do emocional durante o emagrecimento.
Uma alimentação adequada durante o uso desses medicamentos deve incluir alimentos que nutrem o corpo e acolhem o emocional. Comer menos exige refeições melhores!!!
Os medicamentos injetáveis para controle do peso podem ser ferramentas importantes no tratamento da obesidade, mas não substituem o acompanhamento nutricional. Emagrecer não deve significar perder o vínculo com a comida, mas ressignificá-lo.
Referências:
Jastreboff AM et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity. New England Journal of Medicine.
Wilding JPH et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity. New England Journal of Medicine.
Polivy J, Herman CP. Emotional eating and obesity. Appetite.
Hall KD, Kahan S. Maintenance of lost weight and long-term management of obesity. Medical Clinics of North America.
