Skip to content Skip to sidebar Skip to footer

Por Gabriela Ribeiro – Nutricionista

A endometriose é uma condição inflamatória crônica, estrogênio-dependente, caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina. Os sintomas incluem dor pélvica, dismenorreia, fadiga, alterações gastrointestinais e dificuldades de fertilidade. A doença afeta aproximadamente 10 a 15% das mulheres em idade reprodutiva e representa um importante problema de saúde pública devido à sua alta prevalência, à intensidade da dor associada e à significativa redução da qualidade de vida.

Nesse contexto, a nutrição tem ganhado espaço como estratégia adjuvante no manejo da doença, com recomendações amplamente disseminadas por meio de mídias sociais, fóruns de pacientes e profissionais da área da saúde.

Entre as abordagens mais discutidas estão a exclusão de glúten e lactose. Mas será que essas restrições fazem sentido?

Como a nutrição poderia contribuir com o manejo da endometriose?

A fisiopatologia da endometriose envolve inflamação sistêmica, aumento do estresse oxidativo, alterações nas respostas imunológicas e resistência à progesterona. Além disso, muitas pacientes apresentam queixas gastrointestinais associadas — como distensão abdominal, dor e alterações no hábito intestinal — o que levanta a hipótese de sobreposição com condições como síndrome do intestino irritável (SII).

Essas características sugerem que a dieta pode desempenhar um papel na modulação de certos sintomas, particularmente dor e queixas digestivas. No entanto, conforme coloca Baraut (2026), a plausibilidade biológica por si só não pode substituir evidências clínicas robustas na formulação de recomendações.

Exclusão do glúten e lactose: Modismo ou respaldado pela ciência?

Não existe evidência robusta que sustente a retirada completa do glúten e lactose na endometriose. Das pesquisas realizadas, a maior parte dos dados é:

● Observacional

● Baseada em autorrelato

● Estudos sem grupo controle

Além disso, os estudos pontuam que dieta restritivas além de apresentarem baixo nível de evidência, podem gerar deficiências nutricionais e carga psicológica associada a pior relação com a comida.

Por que algumas pacientes relatam melhora?

Conforme descrito em um estudo publicado no JAMA (2025), há relatos de mulheres com endometriose associados a melhora dos sintomas ao retirar glúten, lactose e/ou cafeína da dieta. Porém, são dados advindos de estudos observacionais e sem controle de variáveis, o que torna os resultados suscetíveis a variáveis como efeito placebo/nocebo, melhora global da dieta, modulação da microbiota e redução do consumo de FODMAPs (não necessariamente glúten e lactose).

Evidentemente, casos em que a paciente possui diagnóstico de doença celíaca, sensibilidade ao glúten não celíaca e/ou intolerância à lactose, exigem a retirada desses nutrientes — mas, isso independe do diagnóstico de endometriose.

Prescrição na prática: O que é, de fato, promissor?

Indo de encontro à recomendação de excluir lácteos da dieta, um estudo de revisão do tipo umbrella (2025) sugere, com ainda baixa evidência e estudos heterogêneos, possíveis efeitos benéficos do consumo de lácteos magros e vegetais associados à fisiopatologia da endometriose. Por outro lado, aponta o consumo elevado de gordura saturada e cafeína com uma possível piora da condição.

No que se trata de evidências robustas e que podem ser incentivadas na prática clínica, padrões alimentares globais como a dieta mediterrânea ou a dieta DASH são apoiados por estudos de saúde pública e podem oferecer benefícios indiretos na inflamação sistêmica, na saúde cardiometabólica e no bem-estar geral. A nível individual, pacientes que apresentam sintomas compatíveis com a síndrome do intestino irritável podem se beneficiar de dietas com baixo teor de FODMAP, desde que sejam de duração limitada e com acompanhamento profissional.

Referências:

BARAUT, Marie-Caroline. Nutrition and endometriosis: Evidence, limits and clinical perspectives. Clinical Nutrition ESPEN, v. 72, p. 102954, 2026. DOI: https://doi.org/10.1016/j.clnesp.2026.102954.

HEARN-YEATES, Francesca et al. Dietary modification and supplement use for endometriosis pain. JAMA Network Open, v. 8, n. 3, e253152, 2025. DOI: https://doi.org/10.1001/jamanetworkopen.2025.3152.

NERI, Lenycia C. L. et al. Diet and endometriosis: An umbrella review. Foods, v. 14, n. 12, p. 2087, 2025. DOI: https://doi.org/10.3390/foods14122087.

VAN HAAPS, Annelotte P. et al. A gluten-free diet for endometriosis patients lacks evidence to recommend it. AJOG Global Reports, v. 4, n. 3, p. 100369, 2024. DOI: https://doi.org/10.1016/j.xagr.2024.100369.

Show CommentsClose Comments

Leave a comment