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Por Gabriela Ribeiro – Nutricionista

Verão, pré carnaval… Apesar de estudos recentes indicarem uma redução do consumo de bebidas alcoólicas pela população, a prática ainda se faz presente na vida de muitos pacientes. A Organização Mundial da Saúde (OMS) é firme em seu posicionamento de que não há dose segura de ingestão de álcool, apontando, inclusive, que em 2019 cerca de 2,6 milhões de mortes foram causadas pelo consumo de álcool no mundo. E que, portanto, esse consumo não deve ser incentivado por profissionais da área da saúde.

No Brasil, o Ministério da Saúde aponta que, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), em 2018 o Sistema Único de Saúde (SUS) gastou aproximadamente R$ 1,7 bilhão com o tratamento de cânceres associados ao consumo de álcool. As estimativas indicam que, a partir de 2040, esse custo poderá ultrapassar R$ 4,1 bilhões anuais, representando um aumento de cerca de 139%.

No entanto, levando em consideração a realidade em que nem todos estão dispostos a deixar completamente de lado as bebidas, como podemos orientar nossos pacientes em direção a escolhas mais conscientes, equilibradas e com menor potencial de dano?

Dosepadrão: ferramenta para comunicação de risco

Com o objetivo de facilitar a compreensão dos riscos associados ao consumo de álcool, independentemente do tipo de bebida, do volume ingerido ou do teor alcoólico, o Ministério da Saúde adota o conceito de dose‑padrão, definida como o equivalente a 10 g de álcool puro. Essa padronização auxilia tanto a comunicação com o paciente quanto a elaboração de orientações mais precisas e individualizadas.

Bebidas alcoólicas: teor alcoólico e valor energético

Em média, a cada 100 mL:

  • Cerveja: ~43 kcal; 4% a 6% de álcool nas versões tradicionais e até 12% (ou mais) nas artesanais

nas artesanais

  • Vinho tinto: 75–85 kcal; 12% a 15%
  • Vinho branco e rosé: 70–83 kcal; 8% a 13%
  • Espumantes: 70–110 kcal; 9% a 12%
  • Frisantes: 70–110 kcal; 7% a 8%
  • Saquê: 100–135 kcal; 13% a 16%
  • Tequila: 230–237 kcal; 38% a 40%
  • Cachaça: 215–232 kcal; 38% a 48%
  • Rum: ~231 kcal; 35% a 54%
  • Vodka: ~231 kcal; 40%
  • Uísque: 217–295 kcal; 40% a 50%
  • Licor: 300–360 kcal; 15% a 30% (ou mais)
  • Conhaque: 215–240 kcal; 36% a 60%
  • Gin: 216–274 kcal; 37,5% a 50%

É importante lembrar que muitas dessas bebidas são consumidas na forma de drinks, frequentemente acompanhadas de ingredientes como açúcar, leite condensado e creme de leite, o que eleva significativamente o aporte calórico da preparação. Esse aspecto pode dificultar processos como emagrecimento e mudança de composição corporal.

Além disso, a literatura científica demonstra de forma consistente que o álcool prejudica o ganho de massa muscular, ao reduzir a síntese proteica, e inibe a lipólise (oxidação de gorduras). Estudos epidemiológicos também sugerem uma associação positiva entre consumo elevado de álcool e maior acúmulo de gordura abdominal e obesidade.

Qual é o objetivo do consumo?

Ao apresentar informações como teor alcoólico e valor energético, uma pergunta simples pode orientar melhores escolhas: qual é o objetivo do consumo?

Alguns pacientes buscam os efeitos do álcool no organismo, como relaxamento ou desinibição. Outros, no entanto, valorizam principalmente o sabor. Nesse segundo caso, é possível sugerir alternativas como bebidas zero álcool ou com menor densidade calórica, que podem atender à expectativa sem os mesmos impactos metabólicos.

Na prática — Orientações que podem ajudar

a prática — Orientações que podem ajudar

1) A dose importa: Entender o objetivo do consumo e priorizar a menor dose possível de álcool, sendo uma estratégia possível revezar opções com álcool e sem álcool. Uma boa sugestão é iniciar com as opções zero, pois pode acontecer de o paciente nem mesmo sentir necessidade da versão tradicional em seguida.

2) Aporte proteico: O consumo de fontes de proteína pode auxiliar de forma sutil no prejuízo da síntese proteica promovido pelo álcool. Um estudo conduzido por Parr e colaboradores (2014) mostrou que o impacto de consumir proteína+álcool na síntese proteica foi de 27% na piora da resposta desejada, enquanto o impacto do carboidrato+álcool foi de 32%. Ou seja, é um um efeito mínimo, mas que de certa forma pode ser aplicado no momento de orientar um paciente a preferir um espeto de frango ou carne ao invés da batata frita como acompanhamento da cerveja.

3) Hidratação: Visando reduzir a desidratação e até sintomas popularmente conhecidos como “ressaca” , intercalar a ingestão de bebidas com água é um cuidado que faz diferença. Outra sugestão é usar gelo para diluir os drinks.

4) Acompanhamentos: Amendoins, embutidos e frituras são escolhas comuns nesse contexto. Oferecer alternativas mais nutritivas — como espetos (frango, carne ou vegetais), hambúrguer caseiro, ovos de codorna ou até opções industrializadas com melhor perfil nutricional — favorece maior equilíbrio alimentar

Por fim, há grupos de maior atenção em que se faz fundamental recomendar a abstinência completa, tais quais:

  • Gestantes
  • Menores de 18 anos
  • Pessoas com doenças que podem ser agravadas pelo álcool
  • Pessoas em uso de medicamentos com interações alcoólicas significativas

Referências

1. BRASIL. Ministério da Saúde. Nota Técnica Conjunta nº263/2024-SVSA/SAPS/SAES/MS. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024.

2.BRASIL. Ministério da Saúde. Imposto seletivo para bebidas alcoólicas é importante medida para redução de óbitos e adoecimentos. Brasília, DF, dez.2024.

3. CANCER RESEARCH UK. How can I cut down on alcohol?

4.PARR, E. B.; CAMERA, D. M.; ARETA, J. L.; BURKE, L. M.; PHILLIPS, S. M.; HAWLEY, J. A.; COFFEY, V. G. Alcohol ingestion impairs maximal post-exercise rates of myofibrillar protein synthesis following a single bout of concurrent training. PLoS One, v. 9, n. 2, e88384, 12 fev. 2014. DOI: 10.1371/journal.pone.0088384.

5.TORRES, G. G.; SIQUEIRA, J. H.; MARTINEZ, O. G. E.; PEREIRA, T. S. S.; MELÉNDEZ, J. G. V.; DUNCAN, B. B.; GOULART, A. C.; MOLINA, M. D. C. B. Consumption of alcoholic beverages and abdominal obesity: cross-sectional analysis of ELSA-Brasil. Ciencias & Saúde Coletiva, v. 27, n. 2, p. 737-746, fev. 2022. DOI: 10.1590/1413-81232022272.02282021.

6. TRAVERSY, G.; CHAPUT, J. -P. Alcohol consumption and obesity: an update. Current Obesity Reports, v. 4, n. 1, p. 122-130, mar. 2015. DOI: 10.1007/s13679-014-0129-4.

7. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Alcohol. Geneva: WHO, 2024.

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