Por Gabriela Ribeiro – nutricionista
O que são eletrólitos e por que importam?
Eletrólitos são minerais responsáveis pelo transporte de água para dentro das nossas células. Nesse sentido, atuam em funções essenciais do organismo como equilíbrio hídrico, condução nervosa, funcionamento de órgãos vitais e contração muscular.
Durante a prática de exercício físico, especialmente em ambientes quentes ou em sessões prolongadas, ocorre perda significativa desses minerais pelo suor. O principal nesse cenário é o sódio, perdido em maior quantidade. Os sintomas mais comuns que sugerem baixo nível de sódio no sangue são: Dor de cabeça, mal-estar, náuseas, confusão mental e cãibras. Outros eletrólitos, como potássio, magnésio e cálcio são perdidos em menor proporção e mais facilmente repostos após a prática.
A desidratação é definida como a perda de água corporal superior a 2% do peso corporal e está associada à redução do desempenho físico e cognitivo. Além disso, a reposição hídrica inadequada, especialmente com ingestão excessiva de água sem eletrólitos, pode comprometer a saúde dos praticantes, com risco de hiponatremia induzida pelo exercício em casos mais extremos.
Na hora de repor: Eletrólitos vs Isotônicos
Um dos pontos mais importantes, e frequentemente confundidos, é a diferença entre suplementos de eletrólitos e bebidas isotônicas.
- Eletrólitos isolados: fornecem minerais (geralmente sódio, potássio, magnésio), sem aporte energético;
- Isotônicos: combinam eletrólitos e carboidratos (geralmente 6–8%).
A presença de carboidratos nas bebidas isotônicas exerce dupla função: fornece substrato energético e favorece a absorção intestinal de sódio e água por meio do cotransportador de glicose-sódio (SGLT1). Por outro lado, soluções com alta concentração de carboidratos (>8%) podem retardar o esvaziamento gástrico e comprometer a tolerância gastrointestinal, especialmente durante exercícios prolongados.
Assim, a escolha entre soluções com ou sem carboidratos deve considerar a duração e intensidade do exercício, bem como o objetivo da intervenção:
- Sem carboidrato → foco em hidratação (treinos leves, estratégias de reposição hídrica)
- Com carboidrato → hidratação + performance (treinos longos, endurance, competições)
O mercado: o que realmente muda entre os produtos?
O mercado atual apresenta ampla variedade de produtos para reposição eletrolítica, incluindo formulações mais antigas e outras mais recentes. De maneira geral, as diferenças entre produtos tradicionais (como isotônicos convencionais) e suplementos mais novos concentram-se nos seguintes aspectos:
1. Composição eletrolítica
Produtos mais recentes tendem a apresentar:
- Maior concentração de sódio
- Inclusão de eletrólitos adicionais (magnésio, potássio)
- Formulações voltadas para atletas de endurance
Já bebidas isotônicas tradicionais apresentam:
- Menor densidade eletrolítica
- Foco principal em sódio e carboidratos
No entanto, é importante destacar que o sódio continua sendo o principal eletrólito relevante para reposição durante o exercício, sendo os demais de impacto secundário na maioria dos contextos.
2. Presença de carboidratos
A principal distinção entre produtos está na presença ou ausência de carboidratos, sendo que, conforme descrito anteriormente, produtos com carboidratos são indicados para exercícios prolongados (>60–90 min) ao passo que as versões sem o macronutrientes devem ser utilizadas em estratégias de hidratação sem demanda energética.
3. Apelo comercial e aplicabilidade clínica
Apesar do avanço nas formulações e no marketing das marcas mais recentes, a literatura sugere que os determinantes mais relevantes da hidratação continuam sendo:
- Volume ingerido
- Concentração de sódio
- Palatabilidade (que influencia ingestão voluntária)
Ou seja, muitos diferenciais apresentados não necessariamente se traduzem em benefícios clínicos significativos para a maioria dos indivíduos.
Reposição eletrolítica caseira: viabilidade e limitações
A utilização de soluções caseiras é uma alternativa viável, especialmente em contextos de acesso limitado a suplementos comerciais.
A formulação básica envolve:
- Água
- Fonte de sódio (cloreto de sódio)
- Fonte de carboidrato (açúcar ou suco)
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda soluções de reidratação oral contendo aproximadamente 75 mmol/L de sódio e 75 mmol/L de glicose. Essas soluções demonstram eficácia comprovada na reposição hidroeletrolítica em situações clínicas, como diarreia aguda. No contexto esportivo, adaptações dessas formulações podem ser utilizadas, embora apresentem menor padronização em comparação aos produtos comerciais.
Indicações clínicas e esportivas
A reposição de eletrólitos deve ser indicada de forma individualizada, sendo particularmente relevante em:
- Exercícios com duração superior a 60–90 minutos
- Ambientes quentes e úmidos
- Indivíduos com alta taxa de sudorese
- Situações clínicas com perda hídrica aumentada (diarreia, vômitos)
Para exercícios de curta duração ou baixa intensidade, a ingestão de água tende a ser suficiente para manutenção da homeostase hídrica.
O papel do nutricionista: entre ciência e comportamento
Talvez o ponto mais importante não seja qual produto escolher, mas quando indicar (ou não indicar).
O uso indiscriminado de eletrólitos pode:
- Ser desnecessário;
- Aumentar custo para o paciente;
- Em alguns casos, trazer riscos (excesso de sódio, por exemplo)
Por outro lado, quando bem indicado, pode:
- Melhorar desempenho;
- Reduzir fadiga;
- Prevenir complicações relacionadas à desidratação
Conclusão
A reposição de eletrólitos não é uma tendência, mas sim uma ferramenta. E, como toda ferramenta, sua eficácia depende do contexto em que é aplicada.
Entre soluções caseiras, isotônicos tradicionais e suplementos modernos, o que realmente importa não é a marca, mas a adequação à necessidade fisiológica do indivíduo.
Mais do que prescrever produtos, cabe ao nutricionista fazer a pergunta certa: Esse paciente realmente precisa de reposição de eletrólitos, ou apenas de uma boa estratégia de hidratação?
Referências
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